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SAÚDE MENTAL NO TRABALHO E O PAPEL DO RH


Atualmente, várias situações proporcionam comoções no mundo e chamam atenção dos profissionais da saúde e também das organizações. As empresas estão cada vez mais preocupadas com a seleção, com a disposição física e mental, prevenção e a sociedade está debatendo mais e buscando conhecer sobre as doenças psíquicas. Não possuir pré-conceitos pode ajudar as pessoas procurarem tratamentos adequados para continuarem sendo produtivas e saudáveis.

Consultamos especialistas e separamos para você reflexões e informações sobre as ações que o departamento de Recursos Humanos pode desenvolver objetivando evitar o aumento sempre crescente do adoecimento psíquico do trabalhador. Confira o que dizem vários profissionais relacionados com o tema saúde mental no trabalho e o papel do RH.

No artigo "saúde mental e trabalho: os problemas que persistem", os autores Leny Sato e Márcia Hespanhol Bernardo, afirmam que, desde a década de 1920, nos Estados Unidos da América, eram documentadas as atividades englobadas sob o título de Saúde Mental Ocupacional, pois as empresas calculavam o custo e benefício para ofertar psicoterapia nas empresas e apresentavam fortes argumentos para tal prática.

Algumas situações são estudadas nesse contexto desde as repercussões psicossociais decorrentes dos acidentes de trabalho e de doenças, até circunstâncias em que os profissionais enfrentam cotidianamente cenários de risco à vida, como atividades de explosões, trabalhos em minas ou ambientes fechados e o trabalho em altura, bem como, desemprego prolongado e os entraves sempre evidentes em momentos de crises econômicas nos países.

Pode ser verificado no site da fundação do trabalho que a depressão e ansiedade são a segunda maior causa de adoecimento relacionado ao trabalho no Brasil. Em 2016, a depressão ocasionou 3.393 benefícios pelo INSS e, em 2006, os transtornos de humor representaram o segundo motivo de ausência de trabalho.

Percebemos que desde 2006 os acometimentos psíquicos, infelizmente, continuam liderando o ranking de afastamentos e ainda não são computados os dados das pessoas que estão doentes e continuam trabalhando, pois não buscam ajuda e nem informações, ou seja, estão doentes mas continuam pensando que estão bem e assim ocorre agravamento da doença.

No site do ministério do trabalho pode verificar que Luciana Veloso, que é auditora fiscal do trabalho e doutora em direito com foco em saúde mental do trabalhador, discorre sobre o fato que as organizações no Brasil, no geral, não se preocupam em promover ambientes que considerem a saúde psíquica dos profissionais, já que a legislação do país não trata desse aspecto, assim o problema tem agravado, sobretudo, nos últimos 30 anos.

Eva Gonçalves Pires que é diretora do Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho do Ministério do Trabalho afirma que a depressão e ansiedade costumam ocasionar maior tempo de afastamento do que os casos de acidentes e algumas outras doenças, devido ao tratamento ser mais prolongado e a recuperação mais demorada. Necessitando que esse tempo seja muito respeitado, pois as doenças psíquicas que não são devidamente tratadas podem gerar muitos riscos para outros tipos de acidentes, também podem gerar ações que comprometam a empresa, os produtos, os processos, o atendimento ao cliente, ressaltando as chances de perigo para vida da própria pessoa e para os demais.

Os autores Amanda de Vasconcelos e José Henrique de Faria, no artigo "Saúde mental no trabalho: contradições e limites" afirmam que houve modificações do conceito saúde do trabalhador, hoje não se fala somente em saúde do corpo, a concepção de saúde envolvendo corpo e mente começa a ser debatida nas empresas e nas formas de gestão, no entanto, o sofrimento no trabalho continua crescente.

Aumenta também o número de pesquisadores instigados a na relação: surgimento das doenças e o trabalho. Observa-se o aumento das organizações que buscam modificações nas relações sociais de produção.

Algumas mudanças aconteceram no mundo, como revoluções tecnológicas, globalização, fusões de diversas empresas, aberturas de capitais financeiros mais circulantes para diversos países e comunicação digital.

As transformações no mundo influenciam a maneira das pessoas se relacionarem e de atuarem nas empresas. As organizações são desafiadas pelos processos de inovação para continuarem competitivas, sendo necessária a adaptação às exigências do mercado. Esses desafios são repassados para os funcionários, com exigências cada vez maiores.

Áreas como a psicologia, psiquiatria, filosofia, antropologia, sociologia e administração vêm realizando estudos sobre a compreensão da relação entre trabalho e Saúde Mental há várias décadas. Diversas pesquisas tiveram início nos anos 50 e relatam sobre as afecções mentais que poderiam ser ocasionadas pelo trabalho.

Christophe Dejours, psiquiatra francês, em 1980, introduziu uma nova teoria, chamada de psicodinâmica do trabalho, sobre a relação entre o trabalho e o sofrimento psíquico, onde as doenças mentais caracterizadas em operários evidenciaram não doenças mentais clássicas, mas fragilizações que favoreciam o surgimento de doenças do corpo e foram constatados comportamentos estranhos ao contexto organizacional, chamados de estratégias defensivas, como consumo de bebidas alcoólicas, entre outros.

Algumas causas de sofrimentos psíquicos no trabalho:

- Falta de trabalho ou a ameaça de perda do emprego

- Trabalho desprovido de significação

- Fracassos, acidentes ou rebaixamento de cargo

- Impossibilidade da comunicação espontânea

- Jornadas longas de trabalho, com muitas horas extras

- Pressão muito grande por produtividade, além do possível realizável

- Níveis altos de concentração em períodos integrais e sem interrupções

Doenças / transtornos relacionados ao trabalho:

- Transtornos do sono e sensação de estar "acabado" (síndrome de burnout e a síndrome do esgotamento profissional)

- Alcoolismo crônico

- Estresse pós-traumáticos

- Neurastenia (síndrome da fadiga crônica)

- Neurose profissional

- Depressão

Dra. Kie Kojo, psiquiatra, membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria, forneceu entrevista exclusiva, confira!

Gente e Gestão RH: O trabalho pode ser um dos fatores causadores de doenças psíquicas? Caso sim, você acredita que ele é um forte fator se comparado com outros ou não é possível realizar essa comparação?

Dra. Kie Kojo: As doenças psíquicas ou psiquiátricas são causadas por vários fatores que interagem entre si. E o ambiente de trabalho, pode sim, contribuir com uma série de problemas de saúde, inclusive mentais. Cobranças de metas excessivas e ou inatingíveis, jornadas de trabalho extenuantes, assédio moral, ameaças de demissão, competitividade patológica, ambiente de trabalho hostil são alguns dos fatores que pesam sobre o adoecimento emocional. Mas, a meu ver, o fator genético ou hereditário, talvez, seja o mais relevante para o desenvolvimento da doença mental.

Gente e Gestão RH: Seria possível as empresas trabalharem com prevenção de doenças psíquicas? Você possui alguma sugestão para as empresas adotarem?

Dra. Kie Kojo: O trabalho de prevenção pode e deve ser realizado em todos os setores da medicina. A psicoeducação é um dos trabalhos mais importantes quando se pensa em prevenção das doenças psíquicas. Desmistificar tabus, combater preconceitos sobre a doença mental e sobre o tratamento psiquiátrico, informar sobre os principais sintomas de um possível adoecimento mental, como: sensação de exaustão, ausência de prazer, angústia, irritabilidade excessiva, sintomas físicos variados com exames normais, insônia, etc, que tendem a persistir por mais que 4 semanas, comprometendo as tarefas habituais. A psicofobia, infelizmente, ainda é o fator que mais impede as pessoas de buscarem ajuda em fases iniciais das doenças emocionais. O suicídio poderia ser evitado em cerca de 90 % dos casos, por exemplo. Além disso, incentivar bons hábitos de vida como a prática de esporte, lazer, ambiente de trabalho humanizado, acesso à psicoterapia, etc. Lembrando que o Brasil apresenta a maior taxa de Transtorno de Ansiedade do mundo e está em quinto lugar quando o assunto é depressão. Mas, no geral, o trabalho é bom para a manutenção da saúde física e mental.

Gente e Gestão RH: Quais são os riscos para o paciente e para as empresas quando as pessoas sentirem sintomas do adoecimento psíquico e não procurarem tratamento?

Drª. Kie Kojo: Os riscos são altos e o raciocínio é o mesmo quando pensamos no risco de não tratarmos uma doença física, como, por exemplo, diabetes, hipertensão arterial. O ideal é sempre intervir nas fases iniciais das doenças e isso não é diferente na psiquiatria que é uma especialidade médica. A doença psíquica ainda apresenta um agravante, consegue flutuar durante alguns anos antes de se tornar grave, mesmo sem tratamento, gerando uma falsa sensação de melhora e ou cura. O agravamento leva a incapacidades laborativas, aumenta o risco de tentativas de suicídio. Quase todos os suicidas tinham uma doença mental muitas vezes não diagnosticada, não tratada ou não tratada de forma adequada.Além disso, o abuso e ou a dependência de substâncias lícitas e ilícitas podem causar surtos psicóticos, aumento do risco de desenvolvimento de doenças físicas como: acidente vascular cerebral, infarto agudo do miocárdio, diabetes tipo 2, hipertensão arterial. Também pode colocar em risco a vida do próprio paciente e de terceiros por envolvimento em acidentes.

"As doenças psiquiátricas serão a principal causa de incapacitação laboral em 2020 e as mortes por suicídio devem aumentar em 50%. A cada 30 segundos uma pessoa tenta o suicídio em todo o mundo e a cada 45 minutos uma pessoa se suicida no Brasil. Entre as 10 doenças que mais causam incapacitação laboral, cinco são psiquiátricas." Drª. Kie Kojo.

Diversas pesquisas apontam que as empresas não possuem a prática de informar os trabalhadores sobre os adoecimentos psíquicos, cabendo ao RH saber dialogar sobre a importância da prevenção. O setor de gestão de pessoas pode contribuir com a produtividade, mobilizar a criatividade e inovação através de programas de gestão.

As negociações com as diretorias referente aos programas de saúde, estão sempre embasadas em cálculos de reduções de custo e redução da rotatividade. Atualmente, a lógica que permeia esses programas é a de que o funcionário saudável falta menos e trabalha melhor, no entanto não se pode esquecer das ações de saúde preventiva para que os projetos não sejam somente efetivos quando os sintomas se transformam em doenças e as doenças se transformam em "redução de produtividade".

As organizações contemporâneas demandam novas ações do setor de RH que contribuam para prevenir doenças com possibilidades de serem advindas da realidade da globalização e da concorrência. Cabe ao profissional de Gestão de Pessoas a função de reconhecer que os profissionais não são apenas recursos, mas sim protagonistas e tratá-los como tal, oferecendo espaço para o pertencimento da equipe.

Separamos 10 dicas de práticas que são realizadas pelos profissionais de Gestão de Pessoas para prevenir o adoecimento psíquico no trabalho:

1 - Ginástica laboral

2 - Clube da Caminhada nos 20 minutos antes do término da jornada

3 - Implantação de torneios de corrida, futebol e outros esportes

4 - Treinos gratuitos após horário de trabalho, contratação de professores de arte marcial

5 - Palestra mensal sobre saúde

6 - Treinamentos e grupos de intervenção

7 - Diálogos sobre a melhoria contínua das condições dos ambientes de trabalho, utilizando diversos canais de comunicação, tais como: comunicação interna, sessões de integração, sensibilizações, treinamentos presenciais e em formato de e-learning, entre outros.

8 - Implantação de política de reconhecimento e clima organizacional, confira mais sobre como utilizar os pontos fortes dos colaboradores para valorizá-los.

9 – O Profissional de RH necessita sempre buscar o diálogo e estar disponível para realizar o acolhimento, triagem e encaminhamento para médicos e tratamentos específicos, mostrando-se disposto e aberto às demandas dos funcionários, estabelecendo laços de confiança, abstendo-se de julgamentos e mantendo o sigilo ético inerente à profissão

10 - Facilitar a distribuição de informações através de quadro de avisos e intranet sobre o adoecimento psíquico e a importância de buscar tratamento, dialogando com a diretoria da empresa sobre o tema e mostrando o quanto a prevenção e o tratamento são importantes.

São inúmeras as ações que podem ser realizadas e esperamos que vocês desfrutem das sugestões e coloquem a criatividade em prática para a realização dos projetos que são benéficos para os trabalhadores e contribuam para os resultados das empresas. Confira também o artigo que separamos sobre as dicas aos profissionais de RH.

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Ana Carolina Martins

Psicóloga Organizacional

Gente e Gestão RH

(31) 2531-0297

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